Plenária da Negritude: Um marco na luta pela igualdade étnico-racial.

Imagem
" A luta pela visibilidade das questões enfrentadas pela população negra no atual governo municipal bolsonarista reflete a ausência de compromisso político de quem reduz essas questões étnico-raciais a discursos vazios e ações simbólicas ". Na noite de ontem (23), um evento de grande relevância ocorreu em Vitória da Conquista, reunindo vozes e experiências que ecoam a luta histórica da população negra no Brasil. A Plenária da Negritude não foi apenas um encontro; foi um espaço de reflexão crítica e reafirmação de compromissos diante de um passado que ainda reverbera nas estruturas sociais contemporâneas.

O desmonte da política de Promoção da Igualdade Racial em Vitória da Conquista


Foto: Conquista Repórter "Dia da Consciência Negra" -  Novembro de 2021.

"A Coordenação da Promoção da Igualdade Racial pode ter sido enfraquecida, mas a luta da comunidade negra de Vitória da Conquista continua mais forte do que nunca." 

* Por Redação Democracia Radical

 

Nos últimos anos, a Coordenação Municipal da Promoção da Igualdade Racial em Vitória da Conquista passou por um processo alarmante de sucateamento e desmonte, resultado da política fascista do governo Bolsonaro, seguido ao pé da letra em Vitória da Conquista pelos governos municipais bolsonaristas de Herzem-Sheila. Este órgão, essencial para a promoção da equidade e para o combate ao racismo estrutural na cidade, viu sua estrutura ser drasticamente reduzida e suas operações comprometidas. A degradação desta coordenação não é apenas um reflexo da má gestão, mas também de uma perseguição política que afeta diretamente a luta pela igualdade racial.

Inicialmente, a Coordenação funcionava em um prédio bem localizado, equipado para atender as demandas da comunidade negra de Vitória da Conquista. No entanto, com o desmonte, a estrutura foi transferida para uma pequena sala na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDES). Essa mudança não só simbolizou a diminuição da importância dada à causa, mas também impôs barreiras físicas e logísticas ao trabalho da Coordenação.

Além da mudança de localização, a Coordenação enfrentou severas restrições orçamentárias. Sem dotação orçamentária adequada, ficou impossível implementar políticas públicas eficazes ou realizar ações educativas e de conscientização. Este cenário de precarização foi agravado pela constante troca de pessoas na função de coordenação, o que gerou uma instabilidade institucional que só serviu para enfraquecer ainda mais a luta pela igualdade racial na cidade.

A perseguição política também se fez presente. Funcionários da Coordenação, conhecidos por suas posições antifascistas, foram alvos de retaliações e intimidações. Esse clima de medo e repressão contribuiu para o desmantelamento de uma equipe que sempre esteve na linha de frente da luta contra o racismo. O enfraquecimento da Coordenação foi uma perda significativa para a comunidade negra de Vitória da Conquista, que depende desse órgão para a promoção e proteção de seus direitos.

Herberson Sonkha, uma das vozes ativas nessa luta, expressou sua indignação diante deste cenário. "A Coordenação da Promoção da Igualdade Racial sempre foi uma referência para nós, moradores da periferia de Vitória da Conquista. Vê-la reduzida a quase nada é um golpe duro na nossa batalha diária contra o racismo", afirmou. Sonkha também destacou que a transferência para uma pequena sala na SMDES foi um retrocesso simbólico e prático, pois dificultou o acesso e o atendimento à comunidade.

Elizabeth Ferreira (Beta) uma das fundadoras do Movimento Negro na cidade nos anos 1980 e dos Agentes de Pastorais Negros do Brasil (APN’s), militante de longa data e também ex-coordenadora da CMPIR, compartilhou de uma opinião semelhante. "O corte de verbas destinas ao COMPIR reduziu drasticamente os recursos e a perseguição política não só desestruturam a Coordenação, mas também desmotivam aqueles que estão na linha de frente da luta por igualdade. Precisamos de um espaço digno, ampliar o financiamento e de suporte contínuo para enfrentar o racismo e promover a justiça social", disse.

A realidade é que o desmonte da Coordenação Municipal da Promoção da Igualdade Racial em Vitória da Conquista é um reflexo de um contexto mais amplo de desvalorização das políticas públicas voltadas para a igualdade racial. Em todo o país, há uma tendência preocupante de retrocesso em relação aos direitos conquistados pela população negra. O caso de Vitória da Conquista é apenas um exemplo de como a falta de compromisso político pode comprometer décadas de lutas e avanços.

A transferência da Coordenação para uma sala na SMDES não apenas dificultou o trabalho do órgão, mas também simbolizou uma desvalorização da causa. Em um espaço menor e menos visível, a Coordenação perdeu parte de sua capacidade de articulação e de influência política. Isso teve um impacto direto na implementação de políticas públicas e na realização de atividades educativas e de conscientização.

A falta de dotação orçamentária adequada foi outro golpe significativo. Sem recursos, tornou-se impossível promover ações efetivas e sustentáveis. A Coordenação, que antes realizava eventos, campanhas e programas de apoio à população negra, viu suas atividades serem drasticamente reduzidas. A ausência de orçamento também afetou a formação e capacitação dos funcionários, comprometendo ainda mais a qualidade dos serviços prestados.

As constantes trocas de pessoas na função de coordenação também contribuíram para a instabilidade do órgão. Sem uma liderança contínua e comprometida, a Coordenação perdeu sua capacidade de planejamento a longo prazo e de construção de parcerias sólidas. Cada nova gestão trouxe consigo uma nova abordagem, muitas vezes desarticulada da anterior, o que resultou em uma falta de coesão e continuidade nas ações.

Além disso, a perseguição política enfrentada pelos funcionários antifascistas criou um ambiente de medo e repressão. Muitos desses funcionários, dedicados à luta pela igualdade racial, foram alvo de intimidações e retaliações. Esse clima de insegurança não só afetou a moral da equipe, mas também dificultou a execução de atividades que exigem coragem e enfrentamento.

A comunidade negra de Vitória da Conquista, que sempre contou com a Coordenação para a promoção de seus direitos, viu-se desamparada. Sem um órgão forte e estruturado, as demandas da população negra ficaram relegadas a segundo plano. A falta de políticas públicas eficazes e de ações concretas contribuiu para o agravamento das desigualdades raciais na cidade.

O desmonte da Coordenação também teve um impacto negativo na percepção pública sobre a importância da igualdade racial. Ao enfraquecer um órgão que simbolizava a luta contra o racismo, o poder público enviou uma mensagem de descompromisso com a causa. Isso, por sua vez, desmotivou muitos ativistas e líderes comunitários que se sentiram abandonados e desamparados.

A luta pela igualdade racial é uma batalha contínua e que exige esforços constantes e comprometimento por parte de todos os setores da sociedade. O desmonte da Coordenação em Vitória da Conquista mostra como a falta de apoio e de recursos pode comprometer essa luta. No entanto, também evidencia a necessidade de mobilização e resistência da comunidade negra e dos seus aliados.

Apesar do cenário desolador, a luta não pode parar. Herberson Sonkha e Milena são exemplos de resiliência e de determinação. Eles continuam a lutar por um espaço digno e por políticas públicas que promovam a igualdade racial. Suas vozes e ações são essenciais para manter viva a chama da resistência e para pressionar o poder público a reassumir seu compromisso com a causa.

A conclusão que se pode tirar deste desmonte é que a luta pela igualdade racial não pode depender apenas do poder público. A mobilização da sociedade civil é fundamental para pressionar por mudanças e para garantir que os direitos conquistados não sejam revertidos. A Coordenação da Promoção da Igualdade Racial pode ter sido enfraquecida, mas a luta da comunidade negra de Vitória da Conquista continua mais forte do que nunca.

Em última análise, é crucial que a comunidade se una e continue a exigir um espaço digno e recursos adequados para a Coordenação. A luta pela igualdade racial é uma causa justa e necessária, e não pode ser silenciada por mudanças estruturais ou perseguições políticas. A resistência é a chave para a transformação e para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Em suma, o sucateamento e o desmonte da Coordenação Municipal da Promoção da Igualdade Racial em Vitória da Conquista são um reflexo das dificuldades enfrentadas pela população negra na busca por justiça e equidade. No entanto, é também um lembrete da importância da resistência e da mobilização comunitária. A luta continua, e é através dela que se poderá alcançar uma verdadeira igualdade racial.