Plenária da Negritude: Um marco na luta pela igualdade étnico-racial.


"A luta pela visibilidade das questões enfrentadas pela população negra no atual governo municipal bolsonarista reflete a ausência de compromisso político de quem reduz essas questões étnico-raciais a discursos vazios e ações simbólicas".


Na noite de ontem (23), um evento de grande relevância ocorreu em Vitória da Conquista, reunindo vozes e experiências que ecoam a luta histórica da população negra no Brasil. A Plenária da Negritude não foi apenas um encontro; foi um espaço de reflexão crítica e reafirmação de compromissos diante de um passado que ainda reverbera nas estruturas sociais contemporâneas.

 

Os protagonistas da noite, Waldenor Pereira (PT) e Luciana Silva (PSB), destacaram-se não apenas por suas posições políticas, mas pela clareza com que abordaram a complexidade das questões étnico-raciais. Em um momento em que o discurso político frequentemente se torna superficial, ambos reconheceram seus lugares de fala e a necessidade urgente de uma abordagem inclusiva e respeitosa com os segmentos organizados do movimento negro de Vitória da Conquista. Essa postura é essencial, especialmente em um contexto onde as vozes marginalizadas lutam para ser ouvidas.

É inegável que a luta contra a opressão étnico-racial no Brasil é um legado de mais de 500 anos de colonialismo e escravidão. O reconhecimento desse histórico é fundamental para compreendermos as dinâmicas de exploração e exclusão que ainda persistem. Waldenor e Luciana não se furtaram a essa realidade, afirmando: "Temos um problema real e concreto e vamos resolver coletivamente o que for possível". Essa declaração não é apenas um chamado à ação; é um convite à construção de uma agenda política que priorize a igualdade étnico-racial.

A proposta de criação de uma Secretaria Municipal da Promoção da Igualdade Racial, discutida durante o evento, representa um passo significativo. No entanto, é crucial que essa iniciativa rompa definitivamente com a lógica atual que transforma essa pauta em mais uma ferramenta de cooptar lutas históricas em nome de uma política de aparências. A verdadeira mudança, expressa na postura de Waldenor e Luciana, sinaliza um compromisso profundo com a desconstrução das estruturas de poder racializadas que perpetuam a desigualdade étnico-racial.

A crítica à cooptação ideopolítica histórica é pertinente e deve ser uma preocupação constante. O Estado, enquanto construção sócio-histórica, frequentemente privilegia narrativas que minimizam a urgência das pautas étnico-raciais. A luta pela visibilidade das questões enfrentadas pela população negra no atual governo municipal bolsonarista reflete a ausência de compromisso político de quem reduz essas questões étnico-raciais a discursos vazios e ações simbólicas. Ao contrário do que assistimos hoje, é preciso que as vozes mais críticas e informadas sejam valorizadas, sem que sejam silenciadas por uma lógica de controle.

O exemplo de militantes orgânicos que se destacam por suas análises fundamentadas, ilustra a necessidade de um debate aberto e honesto. Independente do tempo de militância, nomes como Keu Souza, Beta, Niltânia, Detão, Flávio Passos, Dernival Araújo, Letícia Figueredo, Rafael (Islan), Laiz Souza, Lucimeire, Jamile Melo, Naira, Márcio, Nubia Regina, Adermar Cirne, Maria Aparecida (Cida), Nelson Quilombola, Zezito, Rivaldo Gusmão e tantas outras pessoas, além deste que vos escreve, também enfrentam os desafios impostos por uma estrutura de poder branca calcificada que tenta deslegitimar vozes dissidentes.

Assim, a Plenária da Negritude se apresenta como um marco, não apenas em Vitória da Conquista, mas como uma referência para a luta pela igualdade étnico-racial em toda a Bahia e no Brasil. É um lembrete de que a luta continua e que a construção efetiva de um futuro mais justo exige vigilância, solidariedade e um compromisso inabalável com a verdade. Que este evento sirva de inspiração para todas aquelas pessoas que acreditam na transformação social e na justiça étnico-racial.